A minha vida, um rascunho de mim… Um esboço dos caminhos que não tracei, dos trilhos que deixei de percorrer, das muitas vidas que não vivi… De tantas outras que ainda respiro.
A minha vida, a procura constante do equilíbrio que tarda em chegar, do sorriso que esmorece na rebentação das ondas do mar, da brisa que não corre, da felicidade que se perdeu numa das outras vidas que não vivi…
A minha vida, um mar flamejante de inconstância e dúvida… De traços e rabiscos que faço e logo apago, de quadros inacabados, de linhas curvas que desaparecem sob gotas de chuva ao Sol de Verão.
A minha vida, lágrimas que caem dentro da alma que deixei fugir… Tumultos de paz que não alcanço, de respostas de não encontro, de luas que não brilham.
A minha vida, um sono profundo que logo desperta… Um acordar para a profundidade do desconhecimento absoluto daquilo que nem sei se existe.
A minha vida, a solidão entre as gentes, uma onda de calor em terras gélidas, um olhar longínquo em olhos que não se abriram.
A minha vida é uma permanente inquietude sem resposta… Um sonho que nunca foi… Um sorriso que não sorriu… Uma calma de guerra… Um Sol que não chegou a nascer… Uma onda num mar calmo… A minha vida!
Ao fundo uma bola de fogo emana luz de um vermelho alaranjado que ilumina a praia. O mar é um manto sem cor, de todas as cores e o ondular sereno das águas assemelha-se a uma melodia frágil e tranquilizante. É neste cenário que procura encontrar-se consigo próprio. No seu rosto de porcelana duas janelas de alma cor de avelã, conduzem-no pela areia macia e, talvez cansado – do corpo ou do espírito – deixa-se cair à beira mar. Inspira profundamente como se tentasse conter nos pulmões todo o aroma a maresia, toda a imagem que o cerca e onde permanece, acariciando o cabelo de oiro, num gesto de quem procura encontrar-se. É ali que se senta sempre que precisa de se sentir vivo!
De repente, uma silhueta ao longe fá-lo regressar ao passado… As curvas confundem-se com as ondas do mar, uma longa mancha negra desce sobre os seus ombros, fazendo sobressair o mar no olhar. Fecha os olhos fortemente e volta a abri-los, como que para acordar de um sonho mas a figura continua a avançar pela praia, alheia a tudo. Não era um sonho, tão pouco uma mera semelhança… O coração bate descompassado… Tantos anos depois, o que lhe diria? Teria casado? Lembrar-se-ia dele? Não sabia o que fazer! Se a deixava passar sem uma palavra ou se aproveitava aquele momento para ter outra vez vinte e dois anos! Sentia-se um garoto apaixonado, de pernas a tremer e mãos suadas e frias. Aquela podia ser a última oportunidade que teria de ver nos oceanos contidos em seu olhar, de sentir a pele que lembrava como seda… Não podia ficar ali, paralisado… Sempre de olhos postos na sua antiga paixão, avançou pela areia até que esta pousasse os olhos nele… Num momento sem tempo e sem sons, num segundo que pareceu uma vida, todo o passado voltava e o presente deixara de existir… Como se não tivesse passado um dia – quanto mais vinte anos – entregaram-se num longo e profundo abraço, deixando o mundo lá fora.